Competências Socioemocionais

A ciência por trás, porque investir nisso e sua aplicação no Projeto de Vida dos alunos

Por Rayssa Mendes – socióloga, educadora e produtora de conteúdo na Kuau.

Você está convidado a mergulhar no universo das competências socioemocionais. Contextualizaremos a temática a partir de suas origens na Psicologia e sua incorporação à educação, seu destaque na BNCC e como desenvolvê-las no ambiente escolar.

Competências socioemocionais são habilidades e capacidades essenciais para obtenção de uma vida plena e produtiva, que contribua efetivamente para o desenvolvimento pessoal, profissional e acadêmico de cada estudante.

O estudo das emoções na escola

Vivemos grandes transformações sociais, principalmente desde o início dos anos 2000, com a inserção das tecnologias no nosso cotidiano, e muitas adaptações nos são exigidas – a todo momento e cada vez mais rápido. Elas podem ser de ordem prática como o manuseio de equipamentos mas, em grande medida, trata-se de uma verdadeira mudança de mentalidade.

A comunicação global e o uso de tecnologias passou a exigir novos paradigmas em diferentes segmentos – e a educação não é exceção. É nesse contexto que surge a necessidade de trabalhar de maneira sistemática e estruturada as chamadas competências socioemocionais no ambiente escolar, incorporadas a partir da implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC).

A crise emocional da geração Smartphone

A adolescência é uma fase de constante transformação, tanto do ponto de vista hormonal, como comportamental e emocional. O adolescente passa por mudanças biológicas e fisiológicas, ao mesmo tempo em que enfrenta um aumento das expectativas sobre escolhas e responsabilidades

É um momento importante para a construção das individualidades

Schäfer. Naumann, Holmes, Tuschen-Caffier & Samson, 2016; 
Volkaert, Wante, Vervoort & Braet, 2018

Quando refletimos sobre a atual geração, a dos nativos digitais, também conhecida como Geração Z ou, ainda, geração iGen, termo utilizado pela psicóloga Jean Twenge (2017), nos deparamos com uma geração que, justamente devido à superexposição ao mundo virtual, se desconecta do mundo real e de seus desafios.

Em meio a um mundo, como trata o sociólogo Zygmunt Bauman, de relações efêmeras e rápidas transformações, esses jovens se veem entre a necessidade de rápida adaptabilidade e falta de autonomia, oriunda da superproteção parental. Essa geração se desenvolve, portanto, com maior fragilidade emocional, gerada pelo isolamento do mundo real e a consequente fragilização da sua saúde mental.

Diante disso, o desenvolvimento socioemocional, a partir de diferentes habilidades e competências, se torna essencial para que os jovens adquiram maior autonomia, uma atuação social responsável e solidária, além da capacidade de se adaptar aos desafios e seguir aprendendo ao longo da vida. 

Esquema que mostra as características socioemocionais ao longo das gerações, considerando o contexto de cada época. Os nativos digitais são os nossos estudantes.

Por que competências socioemocionais na escola?

O aspecto socioemocional aborda o sujeito em sua integralidade: enquanto indivíduo, mas também inserido em um meio social. As habilidades e competências socioemocionais, como temos ouvido falar cada vez mais na educação, são importantes para o desenvolvimento integral do indivíduo, em suas várias dimensões, inclusive social e emocional.

A proposta da educação integral exige o desenvolvimento de todas as potencialidades e dimensões humanas dos estudantes, em todos os espaços e tempos da vida. Ela se propõe também a atender às mudanças e desafios do século XXI, sendo as competências socioemocionais  elemento central de formação desse cidadão autônomo, solidário e produtivo.

O desenvolvimento das competências socioemocionais na escola considera que processo de ensino-aprendizagem tem o como protagonista de sua aprendizagem e responsável pela construção do próprio conhecimento.

Dessa forma, as competências socioemocionais no ambiente escolar permitem que o aluno possa compreender a si mesmo. Assim ele será capaz de projetar quem ele quer ser no futuro e definir qual o seu papel no mundo – aspectos fundamentais para a construção de um Projeto de Vida. E, nesse sentido, a escola tem um papel essencial.

Espiral que ilustra a metodologia do projeto de Vida - contemplando as dimensões: Quem eu sou, Quem eu quero ser e Meu papel no mundo
Espiral que traduz a metodologia do Projeto de Vida e suas 3 dimensões a serem trabalhadas com os estudantes – Quem eu sou; Quem eu quero ser e O meu papel no mundo.
Quem eu sou

A autoconsciência, por exemplo, permite ao aluno a descoberta do “Quem eu sou”, por meio da identificação de seus valores pessoais e de suas habilidades, e também a partir do reconhecimento das suas emoções.

Quem eu quero ser

Com o fortalecimento do autoconhecimento, o aluno pode entender o seu contexto atual, a sua trajetória, e começar a projetar a dimensão do “Quem eu quero ser”, traçando os melhores caminhos para concretização do seu Projeto de Vida a partir de tomadas de decisão responsáveis.

O meu papel no mundo

O desenvolvimento da dimensão do “Qual meu papel no mundo” está diretamente vinculada ao despertar de sua consciência social e da percepção de que não está sozinho, e, portanto, que sua interação com o mundo que o cerca é importante para seu próprio desenvolvimento pessoal.

Projeto de Vida e educação socioemocional

A inclusão e adequação das competências socioemocionais no ensino regular prescinde, portanto, de intencionalidade pedagógica, devendo ser algo sistematizado e propositivo.

De acordo com o CASEL (The Collaborative for Academic, Social, and Emotional Learning), um estudo realizado em 2011, envolvendo mais de 270.000 estudantes, concluiu que os jovens participantes de programas baseados em evidências de aprendizagem socioemocional apresentaram ganho de 11% no desempenho acadêmico. Aqui no Brasil, a BNCC, também baseada no CASEL, especifica as 5 competências socioemocionais a serem desenvolvidas no contexto escolar através das 10 competências gerais da Base:

A ciência por trás da Inteligência Emocional

Do ponto de vista do indivíduo, podemos afirmar que as emoções são inerentes ao ser humano, sendo elas que dão significado e sentido à vida. Elas são responsáveis por nos lembrar das nossas necessidades, frustrações e direitos, são o que nos movimenta e nos impulsiona a buscar por mudanças.

Ser capaz de identificar nossas emoções, atribuir significado a elas, entendendo-as, para então tomar melhores decisões sobre nossas ações, é o que poderíamos chamar de Inteligência Emocional e seu desenvolvimento diminuir a ansiedade e o stress, oriundos da falta de regulação sobre as emoções.

Na década de 1980, o psicólogo Howard Gardner  começou a supor que as aptidões intelectuais humanas não eram tudo o que uma pessoa precisava ter. Ou seja, o seu QI (Quociente de Inteligência, que mede o conhecimento cognitivo e lógico-matemático de uma pessoa) não era suficiente para medir suas reais competências e habilidades. Após diversos estudos, propôs a teoria das Inteligências Múltiplas, na qual a Inteligência Emocional, também conhecida por Inteligências intra e interpessoais, seria uma delas. 

Gardner conta sobre como sua teoria das Inteligências Múltiplas foi incorporada à educação – assim como ocorreu com as competências socioemocionais.

Alguns modelos surgiram a partir disso, propondo conceituar a Inteligência Emocional (IE) e aprofundar os estudos a respeito dela, como o de Mayer e Salovey (1997), o de Bar-On (2006) e o de Goleman (1995). O de Mayer e Salovey pressupõe que a IE se caracteriza como uma habilidade cognitiva associada à inteligência geral, baseado nos estudos tradicionais sobre inteligência, concebida a partir do trabalho a respeito do QI. 

Já o modelo de Bar-On entende que a inteligência socioemocional consiste em competências, habilidades e facilitadores emocionais e sociais, divididas em cinco áreas diferentes que interagem umas com as outras, sendo intrapessoal, interpessoal, de gerenciamento do estresse, de adaptabilidade e o humor geral.

Por fim, Goleman propõe um olhar sobre a IE do ponto de vista organizacional, que se desdobrou em competência emocional. Então, surge a noção de que pode ser desenvolvida de maneira sistematizada e intencional, a partir de aspectos fundamentais – autoconsciência, autocontrole, consciência social e habilidade de gerenciar relacionamentos.

Os benefícios das competências socioemocionais na escola

Devido ao aspecto holístico, a apredizagem socioemocional no ambiente escolar pode auxiliar a:

Elas não excluem as competências cognitivas (interpretar, refletir, pensar abstratamente, generalizar aprendizados), mas as complementam. Esse novo paradigma para o ensino envolve aliar múltiplas competências para um desenvolvimento pleno.

Goleman explica o que é a Inteligência Emocional e os benefícios ao desenvolvê-la nos currículos escolares.

Como aponta Goleman (2012), a inserção das competências socioemocionais na escola deve propiciar que o aluno desenvolva sua capacidade de reconhecer e classificar seus sentimentos e entender como eles o leva a agir. Também  permite que possam identificar pistas, por vezes não-verbais, de como as outras pessoas se sentem. Estimula que ele seja capaz de analisar o que gera estresse e também o que o motiva, e, por fim, permite que ele desenvolva a sua comunicação para solução de conflitos.

Esquema psicológico que demonstra o processo de aprendizagem socioemocional - identificar, significar e agir a respeito de suas emoções.
Esquema que demonstra o processo de autoconhecimento e autocontrole a partir das emoções: identificar, significar e agir a respeito delas. Isso pode ser uma jornada de aprendizado na escola, espaço oportuno para praticar esse processo.

Com isso, o aluno passa a ser capaz de gerenciar melhor seus relacionamentos e ter uma maior consciência social e coletiva, contribuindo para o desenvolvimento de empatia, ética, responsabilidade, entre outras habilidades. Além disso, ao ser capaz de desenvolver sua autoconsciência e autocontrole, o adolescente é capaz de fortalecer sua autoestima e nutrir uma autoimagem positiva.

Essa aprendizagem está baseada na Psicologia Positiva e na mentalidade de crescimento, mostrando ao aluno a importância do conhecimento enquanto processo contínuo. Aprender com os erros, tanto quanto com os acertos, gera percepções e emoções mais positivas e, consequentemente, amplia o prazer em relação ao processo de aprendizagem.

ícone que representa o socioemocional - um cérebro ao lado do coração

Competências socioemocionais na prática

O uso de metodologias ativas é cada vez mais recorrente, sobretudo mediante o novo paradigma que traz o aluno para a construção de seu Projeto de Vida. Elas também trazem importantes contribuições para o desenvolvimento de socioemocionais. 

O estímulo ao uso de um Diário de Bordo, por exemplo, é uma ferramenta que possibilita ao aluno registrar acontecimentos, sentimentos e aprendizados, contribuindo para sua autogestão e consciência socioemocional.

Além disso, atividades que envolvem debates, projetos coletivos, ações na comunidade, simulações e gamificações desenvolvem capacidade crítica e reflexiva ao se aprofundar sobre determinado tema. Ademais, possibilitam o exercício da empatia, do diálogo e a resolução de conflitos ao se deparar com outros posicionamentos.

Vale ressaltar que, antes de qualquer ação, é importante entender o contexto escolar para incorporação de propostas como essas. É fundamental ter clareza sobre:

  • práticas de aprendizagem socioemocional em outros contextos;
  • recursos disponíveis no território escolar;
  • estrutura curricular vigente;
  • conhecimento geral entre a equipe escolar sobre tais práticas;
  • o desenvolvimento socioemocional dos educadores.

Programa Socioemocional na escola

Inovar e criar metodologias para que o estudante seja protagonista e capaz de construir seu Projeto de Vida é um dos objetivos da KUAU. Nossa proposta propõe o desenvolvimento socioemocional a partir de mentoring, ensino híbrido e aprendizagem ativa. Alunos, pais e educadores podem acompanhar o desenvolvimento a partir dos recursos didáticos disponíveis: 

ícone que representa um aplicativo de celular com vídeos
  • diário de bordo do aluno – para ser acessado pelo aplicativo de celular;
ícone que representa um diário
  • diário da família – para engajar a família no desenvolvimento dos estudantes; 
ícone que representa relatórios de gestão escolar
  • plataforma de gestão – para educadores acompanharem e intervir pedagogicamente de forma responsiva.

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