Acolhimento e empatia na escola

Nossa conversa abordou como a aprendizagem socioemocional é uma aliada para superar esse momento de crise e mostrar valor às famílias

Por Marina Damasceno, educadora e gerente de relacionamento na Kuau.

Queridos educadores, em nosso segundo encontro online aprofundamos o entendimento sobre a aprendizagem socioemocional, mais importante que nunca! Falamos sobre como a empatia e o acolhimento são estratégias pedagógicas centrais para a construção do Projeto de Vida dos estudantes, a integração com as famílias e o cumprimento da BNCC.

Representação artística da Inteligência Emocional - Ícone mostra contorno do perfil de uma pessoa com o de senho de um cérebro com um coração dentro

Nossa segunda roda de conversa online teve como tema o acolhimento socioemocional e a empatia sob a perspectiva da educação integral. Isso é importante porque estamos vivenciando uma fase de frustrações, angústias e medos, mas a escola pode ser um espaço para trabalhar positivamente essa situação, em uma jornada pedagógica. Na conversa, nossas convidadas dão dicas de como promover a escuta empática na comunidade escolar, para maior integração com as famílias.

A crise dentro da crise

Iniciamos nossa conversa, contextualizando os desafios da escola particular nesse momento: além de atender exigências legais e expectativas das famílias, ela precisa adaptar-se ao uso de tecnologias para ensino remoto e ainda lidar com o ambiente de competição que o mercado privado possui.

Além de tudo isso, a situação atual potencializa o problema da saúde mental, tanto dos adolescentes, mas também das famílias e toda comunidade escolar (professores, gestores, colaboradores). Consenso entre os três painelistas da conversa, precisamos olhar para os seres humanos por detrás desses atores envolvidos na educação.

Apesar de nossas singularidades, somos todos humanos. Por isso, acolhimento e empatia são estratégias pedagógicas de superação da crise. Que tal compartilhar essa conversa com outros educadores?

Aprendizagem depende do fator emocional

Partimos da premissa que, para superar essa crise, precisamos cuidar do nosso maior ativo: a nossa saúde mental. O ponto de partida trazido pelo mediador da conversa, Gilber Machado, é que não há ensino sem saúde mental dos educadores, assim como não há aprendizagem sem saúde mental dos alunos em um ambiente saudável. Mais do que nunca, é notória a necessidade de desenvolver a Inteligência Emocional (Mayer e Salovey, 1997; Goleman, 1995). Tudo isso porque, nesse momento:

  • surge a oportunidade de estabelecer vínculos e impactar positivamente as famílias (percepção de valor);  
  • há uma perspectiva de futura “guerra comercial” por alunos (estratégia de preço e diferenciação das escolas);
  • os pais estão valorizando a escola como agente de formação além do letramento (socioemocional); 
  • com a participação das famílias nas atividades remotas, elas avaliam a qualidade do trabalho dos profissionais da escola;
  • fica evidente a crise da autonomia e responsabilidade dos estudantes.

Priorizar o humano

A psicopedagoga Juliana Merij, que atua na educação desde 1987, pontua que as escolas devem formular um plano de ação coletivo para superação desse momento e volta às aulas presenciais – ainda sem perspectiva. Ela sugere, inclusive, a inclusão de avaliação diagnóstica para compreensão do contexto e das perdas, para além dos conteúdos curriculares. “Ao contrário do início da pandemia, em que a escola teve que mudar em 48 horas, agora o que temos em nosso favor é tempo (…). Neste momento, onde a escola está muito próxima às famílias, [devemos] ouvi-las, inclui-las”.

A proposição de Juliana foi reforçada pela psicóloga convidada Érica Canal: “a ideia deve ser de priorizar espaços qualificados de acolhimento, de escuta neutra, sem viés“. O objetivo é estabelecer coletivamente uma agenda que faça sentido do ponto de vista pedagógico e circunstancial. A escuta em grupo traz pontos de convergência importantes em que são compartilhadas as fragilidades emocionais do coletivo e estratégias de enfrentamento de problemas.

Roteiro para guiar a resposta educacional à Pandemia (resumo em português aqui) e Parecer nº 5/2020 do CNE que aborda possibilidades da reorganização do calendário escolar, ambos citados por Juliana

Acolhimento sem empatia é simpatia

A psicóloga que atende adolescentes, famílias e educadores, ressalta que “a empatia é sobre entender cada um. Mas mesmo que a gente fale de cada um, todos temos algo em comum, todos somos seres humanos“. E é justamente esse ponto que a profissional ressalta: não precisamos e não devemos passar por isso sozinhos pois nossos sentimentos são compartilhados: “os alunos do Ensino Fundamental estão desanimados, enquanto os do Médio, super ansiosos“.

Dito isso, elencamos alguns pontos que se repetiram e que são fundamentais para entender o contexto e exercitar a escuta empática e acolhimento na escola:

  1. Está tudo bem, não precisa se pressionar por tanta produtividade. A realidade em que estamos vivendo é completamente diferente do normal: professores não são youtubers, pais e famílias não são professores. Os parâmetros de exigência não podem ser os mesmos. Os erros devem ser valorizados como parte do processo de aprendizado!
  2. Precisamos, mais do que nunca, de colaboração. Em meio a tantas incertezas, ansiedades, angústias e inseguranças, é importante que a escola oriente os pais e responsáveis a serem mediadores das atividades pedagógicas remotas. Os grupos de acolhimento também se mostram importantes nesse sentido.
  3. Não vamos dar conta de tudo, a palavra chave é priorização: agora é o momento das socioemocionais! Esse tipo de aprendizagem é muito mais rica quando acontece por meio da valorização das vivências e do lidar com as emoções reais. No contexto da crise, temos material e referencial concreto para a aprendizagem socioemocional. Essa janela de oportunidade é ainda maior quando consideramos os estudantes: por estarem em pleno desenvolvimento, eles possuem uma plasticidade cerebral ainda maior que adultos, facilitando a apreensão do conhecimento.

Empatia não é piedade”

Quando falamos dessa palavra que está bem disseminada, precisamos entender que a empatia vai muito além do discurso. A fala da professora Juliana esclarece o que é empatia na prática: se esforçar para saber o que a outra pessoa sente, se colocar no lugar dela e não fazer nada a respeito não é empatia, é piedade. Empatia é sentir o que o outro sente e pensar no agir, em fazer alguma coisa”, reitera Merij.

Esquema sobre o processo do despertar da empatia, que começa pelo estar > ver > olhar (prestar atenção) > se deixar vulnerável > criar narrativa pessoal > despertar de sensação > conexão > reflexão e ação
É esse o exercício que devemos praticar agora, tendo como objetivo a ação. “É a vivência que traz o conteúdo emocional”, ressalta a psicóloga Érica. Fonte da imagem: Empatia – A habilidade fundamental para os novos tempos

Nossa proposta é pensar de maneira intencional em transformar a crise em uma oportunidade de desenvolvimento da cultura empática na escola. Afinal, discussões anteriores – com a BNCC sendo o marco legal que regula essas diretrizes, vêm aumentando a percepção sobre a importância da educação integral, mais adequada ao mundo cada vez mais imprevisível. Abaixo, listamos 3 competências gerais da BNCC legitimam a aprendizagem socioemocional e estão intimamente ligadas a esse contexto:

Empatia e cooperação
Exercitar a empatia, o diálogo, a resolução de conflitos e a cooperação, fazendo-se respeitar e promovendo o respeito ao outro e aos direitos humanos, com acolhimento e valorização da diversidade de indivíduos e de grupos sociais
Autoconhecimento e autocuidado
Conhecer-se, apreciar-se e cuidar de sua saúde física e emocional, compreendendo-se na diversidade humana e reconhecendo suas emoções e as dos outros, com autocrítica e capacidade para lidar com elas
Projeto de Vida
Valorizar a diversidade de saberes e vivências culturais e apropriar-se de conhecimentos e experiências que lhe possibilitem entender as relações e fazer escolhas alinhadas ao exercício da cidadania e ao seu projeto de vida

“Viver a partir da dor”

Como ainda não há perspectivas de volta às aulas presenciais e essa decisão está fora da alçada das unidades escolares, o foco deve ser no que é possível controlar e realizar. “Precisamos de seres humanos fortes, resistentes, que consigam enfrentar crises sem se quebrar. Ele vai sofrer (…), mas não vai quebrar”, afirma a educadora.

As convidadas instigaram a audiência quando disseram que não existe mágica para desenvolver uma cultura empática na escola. Mas o acolhimento deve ser o ponto de partida. “Não há receita de como fazer, mas existem ingredientes infalíveis, e a empatia é um deles”, acrescenta Juliana.

De forma organizada e estruturada, a comunidade escolar poderá superar essa fase da forma menos penosa possível, enquanto desenvolve alunos autônomos, produtivos e solidários

Ações para a escola: Agenda positiva

“Uma agenda são temas trabalhados de diversas formas”, propõe a psicóloga. O desafio é pensar em diferentes canais remotos de troca, sejam eles informais, técnicos ou instrucionais para, de fato, valorizar os aprendizados que surgem a partir da crise. Essas estratégias podem ser direcionadas (aos profs, sobre interação e autocrítica nas videoaulas, por ex.) ou trabalhados de forma ampla com toda a comunidade escolar. Isso é importante pois considera a diversidade dos atores envolvidos e suas linguagens: isso é empatia na prática.

Os temas sugeridos para essa Agenda mensal convergem entre estratégias para lidar com a crise, as competências obrigatórias da BNCC e teorias psicológicas consagradas, como a Big Five – ou 5 fatores de personalidade. As duas convidadas sugerem uma Agenda em que são tratados temas relacionados a essas vivências de forma propositiva, positiva e em profundidade, considerando:

Temas

Formatos

  • Amabilidade – base para empatia e escuta empática;
  • Autogestão – organização, disciplina, persistência. plano de estudos e rotina, autonomia;
  • Engajamento – ações sociais, protagonismo, “sair da bolha”, consciência social, cidadania;
  • Resiliência emocional – reconhecer e identificar emoções, aprender a lidar com elas, autorregulação, tolerância a frustrações, ao stress, ansiedade e culpa;
  • Abertura ao novo – adaptabilidade, conviver com imprevisibilidades, criatividade;
  • Projeto de vida – reflexões pessoais sonhos e futuro, autoconsciência, autoconhecimento, autocuidado.
  • Grupos de acolhimento – comunicação com as famílias em grupos de WhatsApp ou outro canal, para troca de angústias e soluções (ex. cada família faz um painel de atividades ao longo das semanas para compartilhar);
  • Plataformas digitais – programa de Projeto de Vida da KUAU;
  • Encontros online – lives, rodas de conversa ou oficinas (ex. “Mapa da Empatia”);
  • Reuniões individuais – com aqueles que precisam de maior acompanhamento (educação especial e infantil, principalmente);
  • Conteúdos orientativos – vídeos, podcasts, guias, e-books, áudios com exemplos sobre como lidar com a situação.
Espiral que ilustra a metodologia do projeto de Vida - contemplando as dimensões: Quem eu sou, Quem eu quero ser e Meu papel no mundo
Metodologia do Programa de Projeto de Vida Online da KUAU. Baseada em ciclos de narrativa pessoal e feedback por meio da escuta empática, os estudantes iniciam a construção de seu Projeto de Vida

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3 comments

  1. Carlos

    Quando leio no texto “os alunos do Ensino Fundamental estão desanimados, enquanto os do Médio, super ansiosos“. Lembro-me que foi exatamente essa a minha realidade. E hoje compreendo que falta muito essa empatia por parte de alguns educadores.

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